Os sofrimentos do jovem Werther

Autor: Johann Wolfgang von Goethe

12 de agosto

- Era uma boa e doce criatura, que crescera no estreito círculo de suas ocupações domésticas, fazendo sempre o mesmo trabalho. Não conhecia outra espécie de prazer senão ir, lá uma vez por outra, aos domingos, com seu melhor vestido de enfeites, passear pela cidade em companhia das amigas. e às vezes dançar em alguma festa. No mais, costumava passar uma hora conversando com a vizinha a respeito de uma desavença ou maledicência. Mas, a sua natureza ardente sentiu, afinal, certas solicitações mais íntimas estimuladas pelo galanteio dos homens, e e seus divertimentos de outrora foram perdendo aos poucos todo o interesse, até que ela sai do seu retraimento porque encontra alguém para o qual a impele um sentimento desconhecido e poderoso. É para esse alguém que se voltam todas as suas esperanças; ela esquece o mundo e não houve, não vê, não sente senão esse alguém. só ele existe para ela, só ele deseja. Como essa jovem não estava corrompida pelas satisfações frívolas da vaidade, o seu desejo vai diretamente ao alvo: ela quer ser dele encontrar uma união eterna com ele toda a felicidade que lhe falta e com ele gozar todas as alegrias que tanto desejava. Propostas sempre repetidas transformaram suas esperanças em certezas; carícias ousadas aumentaram seus desejos, acabam dominando completamente a sua alma, ela flutua, num estado de semiconsciência, num sonho de ventura incomparável. Tendo atingido o mais alto grau da impaciente espera, quando enfim estende os braços para chegar à realização de todos os seus desejos, o seu amado a abandona. Ei-la privada de todas as faculdades de sentir e pensar! Vê diante de si um abismo; ao seu redor, trevas e só trevas: nenhuma esperança, nenhuma consolação, nenhum futuro, porque ele a deixou, aquele que dava sentido à sua vida. Não vê mais o vasto mundo que a cerca, nem aqueles que poderiam substituir o bem perdido; sente-se sozinha, abandonada para sempre. Então, cega, alucinada pela angústia horrível que lhe oprime todo o ser, precipita-se para a morte que a espreitava, a fim de nela afogar todos os seus tormentos...

A pedra da luz (Volume 1)

Autor: Christian Jacq

Silencioso terminou de moldar uma centena de tijolos que colocaria sobre a camada de pedram, formando o soco de uma casa destinada a família de um militar. Para um filho de escultor do Lugar da Verdade, isso era infância da arte. Durante a adolescência, Silencioso divertia-se fazendo tijolos de todas as dimensões, e até terminara por fabricar os moldes.
- Sua técnica é excepcional - avaliou o patrão.
- Tenho jeito e faço com calma.
- Você sabe muito mais do que mostra, não é?
- Não acredite nisso.
- Não importa... Pensou na minha proposta?
- Preciso de mais tempo.
- Está bem, meu jovem. Espero que outro empreiteiro não tente conquistá-lo...
- Fique sossegado.
- Confio em você.
Silencioso havia percebido a estratégia do patrão: ele o mandara encontrar-se com a filha para que fosse seduzido, pedisse-a em casamento, aceitasse o posto de contramestre e fundasse um lar. Desse modo, seria obrigado a assumir a empresa da família.
O patrão era um homem bom, e achava estar agindo no interesse da filha. Silencioso não estava ressentido. A manobra poderia ter sido um fiasco, porém ao rapaz ficaria loucamente apaixonado por Clara. Mesmo que o destino traçado pelo futuro sogro fosse semelhante a uma prisão aonde não queria entrar, não podia imaginar a vida sem a jovem.
Graças a ela, ao seu rosto e à sua luz, ele não se atirou no Nilo para pôr fim à vida errante. Mas não havia provas de que a jovem partilhava dos seus sentimentos e não ia obrigá-la a casar-se com ele só para satisfazer o pai dela.
Como confessar a uma mulher um amor que de tão intenso poderia assustá-la? Silencioso imaginava mil e uma maneiras para abordá-la, mas cada uma dela parecia-lhe mais ridícula do que a outra. Precisava render-se à evidência: Seria melhor enterrar a paixão no mais fundo do seu ser e partir para o Norte, como previra, sonhando com a felicidade impossível.
No cubículo onde o patrão o alojara, Silencioso não conseguia pegar no sono. Achava que havia tomado a decisão certa, mas não conseguia encontrar a paz. O povoado, as estradas sem fim, os olhos azuis de Clara, o rio... Tudo se misturava em sua cabeça, como se estivesse embriagado.
Viver para ela, tornar-se seu servo, permanecer sempre ao seu lado sem nada pedir... Talvez fosse a solução. Porém, a jovem, cansada, acabaria casando-se. A dor da separação seria ainda mais dilacerante.
Silencioso não tinha escolha.
No dia seguinte, pela manhã, terminaria o trabalho começado, iria ai mercado comprar provisões e deixaria Tebas para sempre.