Autor: Stephen King
Capítulo 15
Mais tarde, Johnny supôs que o motivo pelo qual acabou fazendo amor com Sarah — quase exatamente cinco anos depois da feira teve muita coisa a ver com a visita de Richard Dees, o homem da Inside View. O motivo pelo qual ele afinal fraquejou e convidou Sarah para visitá-lo foi pouco mais que uma necessidade triste de ter uma visita agradável para tirar o mau gosto da boca. Ou foi o que disse para si mesmo.
Ligou para ela em Kennebunk; atendeu a ex-companheira de quarto, dizendo que ia chamar Sarah. O fone foi largado, e seguiu-se um momento de silêncio em que ele considerou (mas não muito a sério) a idéia de apenas desligar e encerrar o assunto de vez. Depois ouviu a voz de Sarah.
— Johnny? É você?
— O próprio.
— Como está?
— Bem. E você?
— Estou bem — disse ela. — Que bom que você tenha telefonado. . . eu não sabia se você iria ligar.
— Continua com a cocaína?
— Não, agora estou na heroína.
— O seu filho está com você?
— Claro. Não ando sem ele, para canto nenhum.
— Bom, por que vocês dois não vêm até aqui um dia desses, antes de terem de voltar para o norte?
— Eu gostaria, Johnny.
— Meu pai está trabalhando em Westbrook, e sou o cozinheiro-chefe e lavador de louça. Ele chega por volta das quatro e meia da tarde, e comemos por volta das cinco e meia. Está convidada para o jantar, mas fique prevenida: todos os meus melhores pratos são à base de espaguete franco-americano.
Ela deu uma risada.
— Convite aceito. Qual é o melhor dia?
— Que tal amanhã ou depois, Sarah?
— Amanhã está bem — disse ela, depois de hesitar um instante. — Até lá.
— Cuide-se, Sarah.
— Você também. Ele desligou, pensativo, sentindo-se ao mesmo tempo excitado e culpado... sem motivo válido. Mas os pensamentos da gente iam para onde queriam, não é? E no momento os seus pensamentos queriam considerar possibilidades que era melhor deixar sem explorar.
“Bem, ela sabe o que precisa saber. Sabe a que horas meu pai chega a casa... o que mais precisa saber.”
E seus pensamentos se respondiam: “O que você vai fazer se ela aparecer ao meio-dia?”
“Nada”, respondeu ele, sem acreditar muito. Só de pensar em Sarah, na forma de seus lábios, na pequena inclinação para cima dos olhos verdes... isso já bastava para fazê-lo sentir-se fraco, mole e um pouco desesperado.
Johnny foi para a cozinha e começou a preparar o jantar daquela noite, não tão importante, para dois. Pai e filho se ajeitando. Não tinha sido assim tão ruim. Ele ainda estava convalescendo. Ele e o pai tinham conversado sobre os quatro anos e meio que ele perdera, sobre a mãe... com rodeios cuidadosos, mas sempre parecendo aproximar-se um pouco mais do centro, numa espiral mais apertada. Sem precisar compreender, talvez, mas precisando chegar a um acordo. Não, não fora tão mau assim. Era um meio de acabar de concatenar as coisas. Para os dois. Mas isso acabaria em janeiro, quando ele voltasse para Cleaves Mills, para lecionar. Ele recebera o contrato por meio ano de Dave Pelsen na véspera, e o assinara e devolvera. O que é que o pai faria, então? Continuaria, era o que Johnny supunha. As pessoas têm meios de fazer isso, apenas continuar, resistindo sem grandes dramas, nem onda. Ele voltaria para visitar Herb sempre que pudesse, todos os fins de semana, se achasse que era o certo. Tantas coisas tinham ficado estranhas tão depressa, que o máximo que ele podia fazer era ir tateando como um cego numa sala desconhecida.
Pôs o assado no forno, foi para a sala, ligou a TV e tornou a desligá-la. Sentou-se e pensou em Sarah. “O bebê”, pensou ele. “O bebê será nosso acompanhante se ela vier cedo”. Então, estava tudo bem. Tudo providenciado.
Mas seus pensamentos continuavam arrastados e cheios de conjecturas inquietantes.
Ela chegou ao meio-dia e catorze, do dia seguinte, dirigindo um bonito carrinho vermelho, marca Pinto, estacionando-o, saltando, alta e linda, os cabelos louro-escuros esvoaçando ao vento ameno de outubro.
— Oi, Johnny! — disse ela, acenando.
— Sarah! — Ele desceu para recebê-la; ela levantou o rosto e ele beijou-lhe a face, de leve.
— Deixe que eu pegue o imperador — disse ela, abrindo a porta do lado direito.
— Posso ajudar? — Não, nós nos arranjamos muito bem os dois, não é, Denny? Vamos, garoto. — Com movimentos experientes, ela soltou os cintos que prendiam um bebê gorducho no assento do carro, e tirou-o dali. Denny olhou em volta do quintal com um interesse solene, e depois seus olhos se fixaram em Johnny e pararam. Ele sorriu.
— Vig! — disse Denny, agitando ambas as mãos.
— Acho que ele quer ir com você — disse Sarah. — Muito raro. Denny tem as sensibilidades republicanas do pai.., é meio reservado. Quer segurá-lo?
— Claro — disse Johnny, meio na dúvida.
Sarah riu.
— Ele não vai quebrar você, e você não vai deixá-lo cair — disse ela, entregando-lhe Denny. — Se o deixasse cair, ele provavelmente se levantaria na mesma hora, que nem um joão-teimoso. É um bebê terrivelmente gordo!
— Vun bunk! — disse Denny, passando um dos braços em volta do pescoço de Johnny, satisfeito, e olhando para a mãe, bem à vontade.
— É realmente assombroso — disse Sarah. — Ele nunca se dá bem assim com as pessoas... Johnny? Johnny?
Quando o bebê passou o braço em volta do pescoço de Johnny, uma onda de sensações confusas o tinha dominado como uma água morna. Não havia nada de escuro, nada de perturbador. Tudo era muito simples. Não houve qualquer concepção do futuro nos pen-samentos do bebê. Nenhuma sensação de problemas. Nenhum sentido de infelicidade passada. E nenhuma palavra, só imagens fortes: calor, estar enxuto, a mãe, o homem que era ele.
— Johnny? — Ela estava olhando para ele, apreensiva.
— Hummmm?
— Está tudo bem?
Ela está me perguntando sobre Denny, percebeu ele. Está tudo bem com Denny? Você vê dificuldades? Problemas?
— Está tudo bem — disse ele. — Podemos entrar, se você quiser, mas eu em geral fico na varanda. Daqui a pouco já vai ser hora de ficar em volta do fogo o tempo todo.
— Acho ótimo ficar na varanda. E Denny está com cara de quem quer explorar o quintal. Quintal legal é o que ele está dizendo. Certo, garoto? — Ela emaranhou os cabelos dele, e Denny riu.
— Ele pode andar por aí?
— Contanto que não queira comer as lascas de lenha. — Andei rachando um pouco de lenha — disse Johnny, pondo Denny no chão com o cuidado que teria com um vaso de porcelana Ming. — Bom exercício.
— Como é que você está? Fisicamente?
— Acho — disse Johnny, lembrando-se do tranco que dera em Richard Dees alguns dias antes — que estou tão bem quanto se poderia esperar.
— Que bom! Você estava meio deprimido, da última vez que o vi.
Johnny fez que sim.
— As operações.
— Johnny?
Ele olhou para ela e tornou a sentir aquela mistura estranha de conjecturas, culpa e algo como expectativa em suas entranhas. Os olhos dela estavam sobre o seu rosto, francos e abertos.
— Sim?
— Você se lembra.., da aliança?
Ele fez que sim.
— Estava lá. Onde você disse que estaria. Eu a joguei fora.
— Foi? — Ele não se mostrou muito surpreso.
— Joguei fora e não falei nada para Walt. — Ela sacudiu a cabeça. — E não sei por quê. Isso tem me incomodado, desde então.
— Não deixe que a incomode.
Estavam de pé na escada, um diante do outro. Ela havia corado, mas não desviou o olhar.
— Há uma coisa que eu gostaria de terminar — disse ela, com simplicidade. — Uma coisa que nunca tivemos a oportunidade de terminar.
— Sarah — começou ele, e parou. Não tinha idéia alguma do que dizer. Abaixo deles, Denny andou seis passos cambaleando e sentou-se com força. E riu, sem se importar à mínima.
— Sim — disse ela. — Não sei se é certo ou errado. Eu amo Walt. É um bom homem, fácil de se amar. Talvez a única coisa que eu saiba é distinguir um homem bom de mau... aquele camarada com quem andei na universidade..., era um dos maus. Você me treinou para o outro tipo, Johnny. Sem você, eu nunca teria apreciado Walt pelo que ele é.
— Sarah, você não precisa...
— Preciso, sim — contradisse Sarah, com uma voz baixa e intensa. — Coisas como esta à gente só pode dizer uma vez. E, quer a gente acerte ou erre, acabou-se, de qualquer forma, pois é muito difícil tentar dizer de novo. — Olhou para ele, implorando. — Você entende?
— Sim, acho que sim.
— Eu o amo, Johnny — disse ela. — Nunca deixei de ama-lo. Tentei convencer-me de que foi à vontade de Deus que nos separou. Não sei. Um cachorro-quente estragado é a vontade de Deus? Ou dois garotos apostando corrida numa estrada do interior no meio da noite? Eu só quero... — A voz dela assumira uma ênfase especial, sem expressão, que parecia bater na fria tarde de outubro como o martelinho de um artesão bate numa chapa fina e preciosa — eu só quero o que nos foi roubado. — A voz dela falseou. Ela olhou para baixo. — E quero de todo o coração, Johnny. E você?
— Sim — disse ele. Abraçou-a e ficou confuso quando ela sacudiu a cabeça e afastou-se.
— Não na frente de Denny — disse ela. — Talvez seja burrice, mas isso seria demais como infidelidade pública. Eu quero tudo, Johnny. — Ela corou de novo, e isso começou a alimentar a excitação dele. — Quero que você me abrace e me beije e me ame — disse ela. Sua voz falseou de novo. — Acho que é errado, mas não posso evitá-lo. É errado, mas é certo. É justo.
Ele estendeu um dedo e afastou uma lágrima que estava escorrendo devagar pelo rosto dela.
— E é só esta vez, não é?
Ela fez que sim.
— Uma vez terá de pagar por tudo. Tudo o que poderia ter sido, se as coisas não tivessem saído mal. — Ela levantou os olhos, mais verdes e brilhantes do que nunca, cheios de lágrimas. — Podemos pagar tudo só com uma vez, Johnny?
— Não — disse ele, sorrindo. — Mas podemos tentar, Sarah.
Ela olhou para Denny com ternura; ele estava tentando trepar no cepo de rachar lenha, sem conseguir.
— Ele vai dormir — disse ela.
Ficaram sentados na varanda, vendo Denny brincar no quintal sob o céu azul. Não havia pressa, nem impaciência entre eles, mas havia uma eletricidade crescente, que ambos sentiam. Ela havia aberto o casaco e ficou sentada no balanço da varanda com um vestido azul-claro de lã, os tornozelos cruzados, os cabelos esvoaçando pelos ombros, desfeitos pelo vento. Seu rosto não chegou a perder o rubor. E nuvens brancas esvoaçavam pelo céu, de oeste para leste.
Falaram sobre coisas sem importância... não havia pressa. Pela primeira vez desde que saíra da coma, Johnny achou que o tempo não era seu inimigo. O tempo lhes dera aquela bolsinha de ar em troca do fluxo principal, de que tinham sido roubados, e ficaria ali até que se fartassem dela. Conversaram sobre pessoas que se tinham casado, sobre uma moça de Cleaves Mills que havia ganho uma bolsa de estudos, sobre o governador independente do Maine. Sarah disse que ele se parecia com Lurch, de um programa sobre a velha família Adams, e tinha as idéias de Herbert Hoover, e os dois riram disso.
— Olhe só para ele — disse Sarah, mostrando Denny.
Estava sentado na grama ao lado da treliça de hera de Vera Smith, o polegar na boca, olhando para eles com cara de sono.
Ela tirou o carrinho dele do assento de trás do Pinto.
— Ele fica bem na varanda? — perguntou ela a Johnny. —Está tão ameno o dia! Gostaria que ele dormisse ao ar livre.
— Ele fica muito bem na varanda — disse Johnny.
Ela armou o carrinho na sombra, deitou-o nele e puxou as duas mantas, cobrindo-o até o queixo.
— Durma, nenê — disse Sarah.
Ele sorriu para ela e logo fechou os olhos.
— É só isso? — perguntou Johnny.
— É só isso — disse ela. Aproximou-se dele e passou os braços em volta de seu pescoço. Ele ouvia claramente o leve farfalhar da combinação debaixo do vestido. — Eu queria que você me beijasse — disse ela, com calma. — Esperei cinco anos para você me beijar de novo, Johnny.
Ele passou-lhe os braços pela cintura e beijou-a de leve. Os lábios dela se entreabriram.
— Ah, Johnny — disse ela, contra o pescoço dele. — Eu o amo.
— Eu também a amo, Sarah.
— Para onde vamos? — perguntou ela, afastando-se dele. Seus olhos agora estavam límpidos e escuros como esmeraldas. — Aonde?
Ele estendeu a manta do exército desbotada, velha mas limpa, sobre a palha do segundo paiol. O cheio era flagrante e doce. Acima deles ouvia-se o arrulhar e esvoaçar misterioso dos pardais do paiol, que depois se aquietaram de novo. Havia uma janelinha empoeirada que dava para a casa e a varanda. Sarah limpou um pedaço do vidro e olhou para Denny.
— Está tudo bem? — perguntou Johnny. — Está. Melhor aqui do que na casa. Isso teria sido como... — Ela deu de ombros.
— Fazer o meu pai participar?
— É. Isso é entre nós.
— Da nossa conta.
— Da nossa conta — concordou ela. Deitou-se de bruços, o rosto virado para o lado, na manta desbotada, as pernas dobradas. Tirou os sapatos, um de cada vez. — Puxe o meu zíper, Johnny.
Ele ajoelhou-se ao lado dela e puxou o zíper, fazendo barulho naquela quietude. As costas dela eram cor de café com leite contra a brancura da combinação. Ele a beijou entre as omoplatas, e ela estremeceu.
— Sarah — murmurou ele.
— O quê?
— Tenho de lhe contar uma coisa.
— O quê?
— O médico errou numa daquelas operações e me castrou.
Ela deu um murro no ombro dele.
— Sempre o mesmo, Johnny — disse ela. — E você tinha um amigo que quebrou a cabeça no chicote na feira de Topsham.
— Foi mesmo — disse ele.
A mão dela tocou nele como seda, passando devagar, para cima e para baixo.
— Não parecem ter feito nada de fatal com você — disse ela. Seus olhos luminosos procuraram os dele. — Em absoluto. Vamos dar uma olhada?
Sentiram o cheiro doce do feno. O tempo foi passando. Ele sentiu a aspereza da manta do exército, a suavidade da carne dela, a sua realidade despida. Penetrar nela era como penetrar num sonho antigo, nunca completamente esquecido.
— Ah, Johnny, meu querido... — A voz dela cada vez mais excitada. Seus quadris movendo-se num ritmo acentuado. A voz distante. O contato dos cabelos dela eram como fogo, nos seus ombros e em seu peito. Ele mergulhou o rosto neles, perdendo-se naquele louro-escuro.
O tempo passando no aroma doce do feno. A manta áspera. O som do velho paiol rangendo de mansinho, como um navio, ao vento de outubro. Uma luz branca, suave, entrando pelas frestas do telhado, apanhando os grãos de poeira em meia centena de raios fininhos. Grãos de feno dançando e girando.
Ela soltou uma exclamação. A certa altura ela disse o nome dele, vezes e mais vezes, como uma salmodia. Os dedos dela se cravavam nele como esporas. Cavaleiro e cavalgado. O vinho velho decantado afinal, de uma boa safra.
Depois eles ficaram sentados junto da janela, olhando para o quintal. Sarah pôs o vestido em cima da pele e deixou-o por um momento. Ele ficou ali sentado, sozinho, sem pensar, satisfeito ao vê-la reaparecer na janela, menor, e atravessar o quintal, indo para a varanda. Ela debruçou-se sobre o carrinho e ajeitou as cobertas. Voltou, o vento soprando os cabelos para trás e brincando com a bainha de seu vestido.
— Ele ainda vai dormir mais uma meia hora — disse ela.
— Vai? — sorriu Johnny. — Talvez eu também durma.
Ela passou os dedos dos pés pela barriga dele.
— É melhor não.
E então, de novo, e dessa vez ela estava por cima, quase numa atitude de oração, a cabeça abaixada, os cabelos caídos para a frente, tapando-lhe o rosto. Devagar. E depois acabou.
—Sarah...
— Não, Johnny. É melhor não dizer. Tempo esgotado.
— Eu ia dizer que você é linda.
— Sou?
— É — disse ele, baixinho. — Sarah querida.
— Pagamos a conta toda? — perguntou ela.
Johnny sorriu.
— Sarah fizemos o melhor que pudemos.
Herb não pareceu espantado ao ver Sarah, quando chegou de Westbrook. Deu-lhe as boas-vindas, fez muita festa no bebê e depois ralhou com Sarah por não o ter levado lá antes.
— Ele tem a sua cor e pele — disse Herb. — E acho que vai ter os seus olhos, quando acabarem de mudar de cor.
— Se ele ao menos tiver a cabeça do pai! — disse Sarah. Tinha posto um avental por cima do vestido de lã azul. Lá fora, o sol estava se pondo. Mais vinte minutos e seria noite.
— Sabe, a cozinha deve ser trabalho de Johnny — disse Herb.
— Não consegui impedi-la. Ela me ameaçou à mão armada.
— Bem, talvez tenha sido melhor assim mesmo — disse Herb. — Tudo o que você faz sai com gosto de espaguete franco-americano.
Johnny atirou uma revista no pai, e Denny riu, um barulho alto e penetrante, que pareceu encher a casa toda.
“Será que ele está percebendo?”, pensou Johnny. “Parece que está escrito na minha cara”. E depois ocorreu-lhe uma idéia espantosa, ao ver o pai remexendo no armário da entrada à procura de uma caixa de brinquedos velhos de Johnny, que nunca deixara Vera dar: “Talvez ele compreenda”.
Eles comeram. Herb perguntou a Sarah o que Walt estava fazendo em Washington, e ela contou sobre a conferência a que ele comparecera, que tinha algo a ver com reivindicações de terras dos índios. As reuniões republicanas eram apenas exercidos de treinamento, disse ela.
— A maior parte das pessoas acha que, se Reagan e não Ford for indicado no ano que vem, isso será a morte do partido — disse Sarah. — E, se o Velho Partido morrer, significa que Walt não vai poder concorrer para o lugar de Bill Cohen em 1978, quando Bill vai lutar pelo lugar de Bill Hathaway no Senado.
Herb estava olhando Denny comer vagens, muito sério, uma por uma, mastigando com todos os seus seis dentes.
— Não creio que Cohen possa esperar até 78 para chegar ao Senado. Ele há de concorrer com Muskie, no ano que vem.
— Walt diz que Cohen não é assim tão bobo — disse Sarah. — Ele vai esperar. Walt diz que a oportunidade dele está chegando, e eu acredito.
Depois do jantar, ficaram na sala, e a conversa desviou-se da política. Ficaram vendo Denny brincar com os velhos carros e caminhões de madeira que um Herb Smith muito mais jovem tinha feito para o filho, havia mais de um quarto de século. Um Herb Smith mais jovem, casado com uma mulher forte e bem-humorada, que às vezes bebia uma garrafa de cerveja, de noite. Um homem sem cabelos brancos, que só tinha as maiores aspirações para o filho.
“Ele compreende, sim”, pensou Johnny tomando o café. “Sabendo ou não o que se passou entre mim e Sarah esta tarde, desconfiando ou não do que se tenha passado, compreende a traição básica. Não se pode modificá-la ou retificá-la, o máximo é conformar-se com ela. Esta tarde eu e ela consumamos um casamento que nunca houve. E esta noite ele está brincando com o neto”.
Ele pensou na roda da fortuna, mais devagar, parando.
“Banca. Todos perdem.”
A melancolia estava querendo invadi-lo, com uma sensação triste de fim, e ele afastou-a. Não era hora para isso; ele não permitiria que fosse.
Às oito e meia, Denny tinha começado a ficar irritado e Sarah disse:
— Está na hora de irmos embora, pessoal. Ele pode tomar uma mamadeira na volta para Kennebunk. A uns cinco quilômetros daqui, já terá arriado. Obrigada pelo convite.
Seus olhos, de um verde brilhante, encontraram-se com os de Johnny por um momento.
— O prazer foi todo nosso — disse Herb, levantando-se. — Certo Johnny?
— Certo — disse ele. — Deixe-me levar o carrinho para você, Sarah.
À porta, Herb beijou a cabeça de Denny (que lhe agarrou o nariz com a mão gorducha e puxou-o tanto que os olhos de Herb se encheram de água) e a face de Sarah. Johnny levou o carrinho para o Pinto vermelho e Sarah lhe entregou as chaves, para ele poder colocar tudo atrás.
Quando ele acabou, ela estava junto da porta, olhando para ele.
— Foi o melhor que pudemos fazer — disse ela, sorrindo um pouco. Mas o brilho em seus olhos mostrava que estava novamente quase chorando.
— Não foi nada mau — disse Johnny.
— Vamos nos comunicar?
— Não sei, Sarah. Vamos?
— Não, acho que não. Seria fácil demais, não é?
— Bem fácil sim.
Ela aproximou-se e esticou-se para beijar-lhe o rosto. Ele sentiu o perfume dos cabelos dela, limpos e fragrantes.
— Cuide-se — murmurou ela. — Vou pensar em você.
— Juízo, Sarah — disse ele, e tocou no nariz dela.
Ela então virou-se, sentou-se à direção, uma jovem senhora elegante, cujo marido estava fazendo carreira. Duvido muito que no ano que vem eles ainda estejam com um Pinto, pensou Johnny.
As luzes se acenderam, e depois o motorzinho de máquina de costura roncou. Ela acenou para ele, e em seguida estava saindo pela entrada de carros. Johnny ficou junto do cepo de rachar lenha, as mãos nos bolsos, vendo-a ir-se. Alguma coisa em seu coração parecia ter se fechado. Não era um sentimento avassalador. Isso era o pior: não era um sentimento avassalador.
Ele ficou olhando até desaparecerem as lanternas traseiras, depois subiu a escada da varanda e voltou para dentro de casa. O pai estava sentado na grande poltrona na sala. A TV estava desligada. Os poucos brinquedos que Herb encontrara estavam espalhados pelo tapete, e ele estava olhando para eles.
— Foi bom ver Sarah — disse Herb. — Você e ela tiveram... — houve uma hesitação muito breve — uma tarde agradável?
— Tivemos — disse Johnny.
— Ela vai voltar? — Não, não creio.
Ele e o pai estavam se olhando.
— Bem, talvez seja melhor assim — disse Herb, por fim.
— Talvez.
0 comentários:
Postar um comentário